Glúten e o desempenho esportivo

A nutrição é uma ciência extremamente dinâmica em termos de delineamentos científicos, conceitos científicos, quebras de paradigmas e condutas nutricionais. Há duas razões principais que alimentam as famosas “polêmicas conceituais” da área: empirismo e a ciência conduzida e documentada em ambiente acadêmico. Ambos têm sua importância e devem ser considerados em qualquer debate ou discussão acerca dos conceitos referentes a saúde, terapia, desempenho esportivo, etc.

Sem dúvida, se fosse para seguir o caminho lógico e seguro no estabelecimento de qualquer conduta nutricional, uma das formas corretas seria desenvolver a conduta nutricional a ser aplicada com base em evidências científicas bem controladas, uma vez que estas fornecem subsídios em termos de eficácia e, principalmente, segurança no que concerne à saúde. Entretanto, não se pode ignorar que há condutas e intervenções que ainda não dispõem de informações científicas a nível de estabelecimento de condutas clínicas. Isso pode se dar por diversos motivos: falta de dados científicos, evidências em baixo número, estudos mal controlados, etc. Mas não se pode ignorar que, da mesma forma que a ciência alimenta a prática clínica, o “empirismo” também pode auxiliar no âmbito acadêmico fornecendo perguntas relevantes para a população e que precisam ser avaliadas a fim de comprovar (ou não) sua eficácia e segurança. Nesse ponto, anos de estudos são necessários até que se chegue a uma conclusão parcial.

Este é exatamente o panorama atual quando relacionamos as variáveis glúten e desempenho esportivo. Se checarmos a principal base de dados mundial de ciências médicas, o US National Library of Medicine / National Institutes of Health, e cruzarmos os termos “gluten”, “exercise” e “exercise performance”, veremos que o número de evidências é extremamente escasso (para não falar nulo).
Mesmo isso podendo mudar daqui há alguns minutos devido ao dinamismo da ciência, ainda assim não seria suficiente para que se chegue a uma conclusão parcial.

Portanto, se alguém pergunta (hoje) se há evidência científicas em humanos que associem a ingestão de glúten com o desempenho esportivo, a resposta é não. Em função disso, o tema deve ser tratado com cautela pois, qualquer discussão que for gerada, irá carecer de dados e informações que comprovem os argumentos. Por conta de tal carência, vemos alguns profissionais nutricionistas se manifestarem em posição contra os aspectos negativos da ingestão de glúten sobre o desempenho esportivo, com exceção daqueles pacientes diagnosticados como celíacos. É uma posição e conduta baseada em evidências científicas (na falta delas) e, portanto, tem fundamento e deve ser considerada.

Se por um lado a relação entre glúten e desempenho esportivo tem sido pouco estudada, outras manifestações clínicas já foram avaliadas e apresentam um número considerável de evidências. O que temos de mais próximo, ou seja, que podem apresentar relações indiretas com desempenho esportivo, é a sensibilidade ao glúten.

No contexto atual, é comum observarmos condutas relacionadas a diminuição ou retirada de alimentos fonte de glúten (pães, torradas, massas, cerveja, biscoitos, bolachas, pizzas, salgados) e existe propriedade científica para tanto em indivíduos sensíveis a ingestão destes alimentos. Uma das razões para tal quadro clínico está na genética (hereditariedade) manifestada de diversas formas (sinais e sintomas). Em pacientes sensíveis ao glúten, a ingestão deste pode levar as reações pró-inflamatórias não adaptativas que geram consequências diversas de acordo com o tecido afetado. Em se tratando de exercício, dois tecidos (dentre outros) são fundamentais para a manutenção do desempenho esportivo e podem sofre os efeitos adversos de tais reações: intestino e músculo esquelético. Considerando que a saúde intestinal é de extrema importância para a absorção de nutrientes e manutenção do quadro inflamatório sistêmico, o tecido muscular esquelético pode ser afetado indiretamente de modo negativo. Outros tecidos também podem sofrer reações indesejadas como, por exemplo, cérebro e rins.

Podemos dizer que há duas vertentes (linhas de pensamento) que podem ser adotadas no estabelecimento de condutas nutricionais referentes a glúten e exercício. O profissional pode e tem o direito de se basear em evidências científicas que avaliem a relação direta entre as variáveis e, na ausência desta, tem respaldo para ignorar ou desconsiderar tal relação. Entretanto, há uma linha de estudos muito forte e crescente no contexto clínico que demonstra efeitos adversos da ingestão de glúten em diversos tecidos (inclusive aqueles envolvidos no desempenho esportivo) que podem ser afetadas negativamente a partir da ingestão de alimento que o contenham. De fato, tal relação não pode ser ignorada uma vez que o número de estudos é significativo.

Assim como outros, o tema é polêmico justamente por conta da falta de evidências diretas que proporciona margem a discussão. Contudo, analisando os dados disponíveis na literatura no contexto clínico e extrapolando tais dados para o âmbito esportivo, há informações suficientes que permitem o estabelecimento de relação indiretas (porém evidentes) entre sensibilidade a ingestão de glúten e desempenho esportivo. Alguns profissionais pautam tal conduta simplesmente no fator “composição corporal”, “definir a musculatura”, “secar o abdômen”, etc. Estes são argumentos que não merecem atenção se forem tratados de modo isolado pois são meramente estéticos e, em alguns casos, ignoram a promoção de saúde. Além disso, as evidências estão disponíveis para estudo e o profissional nutricionista tem, atualmente, pesquisas de qualidade que podem lhe fornecer bases mais sólidas acerca da ingestão de glúten.

Como saber se meu paciente é sensível ao glúten? Há um padrão? Retirar ou diminuir a ingestão de glúten? Como retirar? Por quanto tempo? E os outros nutrientes? Essas são questões que somente o profissional nutricionista podem responder a partir de uma avaliação detalhada. A sugestão é não realizar qualquer conduta por conta própria. Procure um profissional especializado. Aos profissionais, segue abaixo uma sugestão de leitura sobre o tema:

Czaja-Bulsa G. Non coeliac gluten sensitivity – A new disease with gluten intolerance. Clin Nutr. 2014 Aug 29. pii: S0261-5614(14)00218-0. doi: 10.1016/j.clnu.2014.08.012.

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Humberto Nicastro é graduado em Nutrição. Pesquisador da área de Nutrição Esportiva. Consultor Científico da Empresa Integral Medica Suplementos Nutricionais. Atua na área de nutrição com ênfase em nutrição esportiva e suplementação nutricional para atletas e esportistas. www.integralmedica.com.br

Foto: Flickr – Borya